agosto 31, 2005

Receita para bem viver: um rato duas vezes ao dia

squeak1Acordei e havia esmagado um rato com o martelo. Justo eu, que tenho asco até do som crocante de uma barata chinelizada. Não podia ser real. Não agüentaria ver os olhos do roedor esbugalhando até saltarem fora de seu crânio. E isso ao som de ossinhos quebrando e músculos se partindo. Vasculhei todo o quarto e nem sinal de martelo ou rato. Foi mesmo um sonho. Que alívio não precisar limpar sangue lectospirento de canto algum... Entretanto, durante todo meu desjejum – o almoço – fiquei com a imagem do bichinho esquartejado na minha cabeça. Relembrava o sonho com perfeição. Primeiro tentei assassinar a infeliz criatura com vassouradas. Quando achei que ele parara de estrebuchar, peguei a pá de lixo pra jogar a carcaça fora. Mas o diabo do rato ainda estava vivo! Tive que dar com a pá de lixo na cabeça dele para deixá-lo tonto tempo suficiente de alcançar o milagroso martelo. Aí foi uma festa. Esmaguei sua cauda, suas patinhas. Percorri todo seu corpo e tac tac tac. Até que cheguei na cabeça. Uma martelada só e os olhinhos pularam prá fora. Lembrei do prazer que senti ao destruir a maldito rato. E não perdi o apetite. Ao contrário, devorei com voracidade o bife, imaginando que era aquele roedor escroto que meus dentes trituravam. O ódio que sentia da criatura se esvaia junto com aquele pedaço de mignon. Quando acabei de almoçar encuquei: por que tanta raiva? Por que, afinal, sonhara com aquilo? Que significados poderiam ter uma porra de um rato morto a martelados em meu quarto? A imagem de um Mickey Mouse fuzilado me fez rir um pouco.
Lembrei, então, da minha semana enlouquecida no trabalho, da tensão, da disputa de egos; lembrei das cansativas brigas familiares do dia-a-dia e de como pessoas queridas podem nos machucar tanto, de como somos vulneráveis. Pensar nisso tudo me inflama uma raiva... Lembrei que tudo isso, às vezes, não me deixa dormir. Outras eu mato um rato.